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Unidade 2 (grupo 3) - A "nova sociologia da educação" - currículo, cultura e sociedade: a contribuição de Michael Young (Grã Bretanha).

 

"A Nova Sociologia da Educação" e  Michael Young

Ao estudar a questão do conhecimento na escola, que remete-nos à discussões sobre currículo, encontramos em Tomás Tadeu ("Documento de Identidade", p.16/17) três diferentes categorias para as teorias do currículo: tradicional, crítica e pós-crítica. È possível distinguí-las ao identificar seus diferentes conceitos porém, segundo o autor, elas diferem entre suas perspectivas quanto à identificação das relações de poder na questão do currículo.

É a preocupação com o “como” ensinar (ensino/aprendizagem), com os conceitos de metodologia, didática e planejamento, nos quais o poder está centrado no professor visando a transmissão do conhecimento, que define as teorias tradicionais do currículo, diferenciadas das teorias críticas pois estas questionam “o quê” ensinar, enfocando o poder do selecionar para constituir o currículo, que envolve conceitos de ideologia, reprodução, currículo oculto, classe social. Já as teorias pós-críticas refletem sobre conceitos como subjetividade, cultura, representação, multiculturalismo, gênero, identidade, avançando em relação às anteriores.

Nessa Segunda unidade da disciplina ep445, nosso estudo voltou a atenção para os acontecimentos situados enquanto teorias críticas, tratando do surgimento e importância daquela constituída como Nova Sociologia da Educação, na Inglaterra, nas décadas de 50/60, século XX.

Sabendo que (1) no sistema educacional da Inglaterra, até o início do século, coexistiam diferentes tipos de ensino, formulados de acordo com sua finalidade de destinar-se à um grupo de alunos previamente selecionados; (2) "a sociologia da educação nesta época ainda não existia como disciplina independente; o funcionalismo orientava os estudos sociológicos até então, apoiado nos princípios de igualdade perante a lei, porém valorizando as diferenças - talentos/méritos/habilidades – individuais." (segundo Ivany Pino) Ficaram mais evidentes as contradições estabelecidas dentro do próprio sistema educacional, como a diferenças de oportunidades para os alunos, entre outras distinções - que podem também ser identificadas nos resultados de análises encomendadas pelo governo para controle do sistema.

Atento à essas questões e, juntamente com os cursos de formação de professores, a nova sociologia da educação surgiu nas décadas de 60 e 70 com a reflexão sobre as condições, os mecanismos e dificuldades da inovação educativa, que parece ter aberto o caminho ao desenvolvimento de uma abordagem especificamente sociológica sobre o currículo. Quando o contexto social e histórico é considerado na literatura "inovadora", é comum existir um modelo implicitamente funcionalista (as práticas de ensino devem ser o que se supõe serem as necessidades e as demandas de uma sociedade em mutação).

Nas contribuições dos sociólogos do currículo, a questão essencial tende a ser sobre como se transforma os mesmos, deixando em segundo plano a problemática funcionalista.

Foi, portanto, sobretudo no contexto dos institutos de formação de professores, que se cristalizou um certo número de idéias características da nova sociologia da educação. Assim, despertado nos sociólogos o interesse educacional, suas principais preocupações iniciais eram quanto às "desigualdade de oportunidades". Ao longo da década de 60, a Nova Sociologia da Educação constata que, desta forma, as preocupações ficariam restritas à questões exteriores à escola ( que não deixam de ser importantes), enquanto que deveria ser dada uma importância maior para a discussão sobre os mecanismos propriamente escolares de estruturação e circulação dos saberes, conforme podemos perceber nos conteúdos dos artigos presentes no livro publicado em 1971, por Michael Young ("Conhecimento e controle: novas direções para a Sociologia da Educação").

Este livro (que reune artigos de diferentes autorias) representa, teoricamente, a reunião das primeiras reflexões quanto ao currículo, e apresenta conceitos e questionamentos da nova sociologia educacional em relação à teoria tradicional, que se importava com "o como" transmitir conhecimento, enquanto que a nova sociologia se propõe a fazer reflexões críticas, analisando "o que" ensinar e quais os interesses e determinações por trás das escolhas curriculares.

Em seu artigo (presente no livro), Bernstein trabalha o conceito dos "códigos do saber escolar"(princípios de produção e de regulação que podem variar segundo os contextos institucionais e sociais), baseado na teoria interacionista, pela qual o indivíduo se constitui através de sua interação com o meio social.

O artigo de Esland trata as questões curriculares por meio de uma discussão fenomenológica, que visa a análise dos significados subjetivos dos professores enquanto transmissores do saber.

Questionando de forma empírica os processos de interação pedagógica, Keddie contribui com seu artigo.

Young, ao organizar este livro, se envolve com os estudos das diversas perspectivas apresentadas, tomando como base para suas questões curriculares, a teoria do conhecimento, a fenomenologia e o interacionismo.

Partindo deste livro, Forquin apresenta uma discussão sobre a problemática curricular, enfocando as análises de Bernstein, Young, Esland e Keddie. Destacaremos aqui as contribuições de Michael Young (segundo Forquin), que se entrelaçam com as dos demais autores.

Young propõe um estudo sócio-morfológico do currículo, levando em conta que os processos de seleção e organização dos conteúdos culturais e cognitivos do ensino, traduzem pressupostos ideológicos e os interesses sociais dos grupos dominantes. Sendo assim, toda a inovação curricular encontrará resistência, uma vez que estão em jogo os interesses sociais.

Young fixa três critérios possíveis para uma classificação dos currículos: segundo o grau de hierarquização, de especialização e de compartimentação dos saberes. A hierarquização se sobrepõe aos outros critérios, pois é através dela que se pode melhor compreender os fatores políticos de transmissão do saber no interior dos sistemas de ensino, bem como compreender as relações fortemente hierarquizadas entre professores e alunos.

O autor afirma ainda, com base weberiana, que a burocratização dos sistemas educativos faz com que a atenção se volte muito mais aos exames e saberes suscetíveis do que para avaliações objetivas. Em decorrência disso, a língua escrita torna-se um dos eixos principais de diferenciação social, privilegiando a abstração individual acadêmica em detrimento da experiência imediata, enfraquecendo assim a ligação entre indivíduo e mundo natural e social.

Forquin também cita a contribuição de Vulliamy quanto ao ensino musical. Ele critica a visão etnocêntrica no ensino da música na Grã-Bretanha, ao afirmar que ela é ensinada de forma estratificada , e que se concentra quase que exclusivamente na tradição da música européia, ignorando a experiência dos alunos. Esta situação reflete os relacionamentos hierarquizados dentro da sociedade mais ampla.

Desse modo, a crítica elaborada por Vulliamy com relação aos métodos pedagógicos e o currículo utilizado no ensino de música na Grã-Bretanha, foi baseada nas críticas da nova sociologia da educação, que afirmam que os conhecimentos obtidos na escola não são nada mais que construções sociais e assim, elaborados de acordo com o interesse dos grupos dominantes na sociedade. Essa relação de caráter sócio-político reflete a sociedade capitalista industrial, que prioriza a hierarquização entre dominantes e dominados. Os alunos não podem expressar suas dificuldades e suas situações sociais através da música, por exemplo, pois isto não interessa à classe dominante.

Estando voltada principalmente ao enfoque marxista de análise destes conceitos, a Nova Sociologia da Educação, embora tenha contribuído significativamente para o avanço das discussões de currículo, prendeu-se por demais ao foco marxista. É através de seu currículo que a escola atua ideologicamente na sociedade, sendo este, baseado na cultura (seus valores comportamentos, hábitos e costumes) da classe dominante. As crianças das classes dominantes são bem-sucedidas na escola, possuindo acesso aos graus superiores, enquanto que por outro lado, as crianças da classe dominada, não se sentindo à vontade no clima cultural e afetivo que pertencem ao código escolar, só podem encontrar o fracasso. Ou seja, as crianças da classe dominada têm a sua cultura desvalorizada e, dessa maneira, completa-se o sentido da reprodução cultural. As classes sociais se mantêm tal como existem, afinal, é através da reprodução da cultura dominante que a reprodução mais ampla da sociedade fica garantida.

Por fim, a Nova Sociologia da Educação acaba por limitar suas análises às teorias de reprodução, além de se prender na crítica sem propor objetivamente práticas para o avanço dos pontos problemáticos do currículo. Foi, por este motivo, bastante criticada e atualmente superada pelas teorias pós-críticas, que abordam outros conceitos como multiculturalismo e etc.

 

Acréscimo:

 

A Nova Sociologia da Educação (NSE) surgiu na Inglaterra em meio a movimentos mundiais nas décadas de 60 e 70. Surgiu em decorrência a questionamentos sobre as disciplinas acadêmicas tradicionais, especialmente a filosofia, a sociologia e a psicologia. Por haver o desejo de cursos, para formação de professores, mais curtos e modulares, estas disciplinas tradicionais estavam sendo " deixadas de lado".

Michael Young deu início à Nova Sociologia da Educação como corrente que procurou discutir principalmente questões realacionadas ao currículo escolar. Havendo, assim, uma  mudança de foco das discussões, transferindo-se este do universo de estratificação socoal para os processos educacionais do currículo.Em um artigo que Young dirigiu para professores foi usado pela primeira vez o termo NSE. Artigo, no qual,Young  relaciona o currículo com o papel dos professores quanto protagonistas de mudanças sociais.

Apesar de inúmeras críticas que surgiram, para Young a NSE contribuiu para redirecionar as discussões sobre o papel dos educadores nas mudanças sociais para as relações da escola com a sociedade e as relações de poder implícita no currículo.

Quanto a mudança do foco de análise da NSE, Young discute três questões : (1) a expansão do ensino possibilitando maior acesso e distribuição, (2) conteúdo e legitimidade de currículo e (3) a escola enquanto espaço de reprodução e resistência.

Michael Young encontra-se no grupo dos teóricos críticos da sociologia do currículo, o qual prioriza discussões sobre ideologias, relação de poder, crítica social, reprodução cultural e social,  entre outras.

Young, relaciona o conhecimento com a experiência do aluno, abordando questões sociológicas e questionando as relações sociais dentro da sala de aula.

A Contribuição de Young é muito importante, já que "sugere" que a NSE busque minimizar as desigualdades sociais, encontrando novas alternativas, e estas democráticas,  de currículo.

Bibliografia:

YOUNG, Michael. A propósito de uma sociologia crítica de educação. Revista             Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 67, n.157, set/dez, 1986, p.             532-537.

YOUNG, Michael. Currículo e democracia: lições de uma crítica à "nova                sociologia da educação. Educação & Realidade. V.14, n.1, jan/jun,                1989, p.29-39.

FORQUIN, Jean Claude. "Nova sociologia:, currículo e cultura. In: In: Escola e              cultura – as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar.              Porto Alegre: Artes Médicas, 1993 (p.67-119).

FORQUIN, Jean Claude. A "nova sociologia da educação" na Grã Bretanha:              orientações, contribuições teóricas, evolução (1970-1980). In:     .               FORQUIN, Jean Claude (org.) Sociologia da educação -10 anos     de               pesquisa. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 147-174.

TEORIAS DO CURRÍCULO, texto anexado à página da disciplina EP 445                que teve como referência MORROW, R. A. e TORRES, C. A.                 Teoria Social e Educação. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições                 Afrontamento. Porto. 1997.

 

 


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