Notícia publicada no jornal A Tarde, em 29/04/01

Dança em campo

MANIFESTAÇÃO - Dançarinos protestam contra projeto que atrela o ensino da dança ao Conselho Federal de Educação Física.

Mary Weinstein

Dançarinos e percussionistas do Male Debalê puxaram o desfile que se espalhou pelo Campo Grande, última quinta-feira, Dia Mundial da Dança. Eles deram um ritmo tipicamente baiano à mobilização que quer chamar a atenção para o perigo de reduzir a expressão artística da dança à categoria de mero exercício corporal.

Os dançarinos não aceitam que o ensino de dança seja regulamentado pelo Conselho Federal de Educação Física, como propõe o projeto de lei do deputado Pedro Pedrossian. “Queremos sensibilizar os nossos representantes e dirigentes do despropósito disso. As bases não estão de acordo”, disse a professora da Ufba Dulce Aquino.

Essa foi a primeira vez que todas as tendências da dança na Bahia uniram-se num movimento comum. As várias academias de dança e de balé de Salvador levaram os alunos para a manifestação encabeçada pela Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia.

Estavam presente a coreógrafa Lia Robatto, a diretora da Divisão de Música e Artes Cênicas da Fundação Cultural, Marize Queiroz, os professores Varney Júnior, de dança de salão, e Antônio Cozido, de dança baiana, os diretores do Viladança, Cristina Castro e Antrifo Sanches, a diretora da Escola de Dança da Fundação Cultural, Simone Najar Gusmão, a ex-diretora da Dimac, Julieta Lomanto, dentre outros.

Bolas de Pilates, roldanas penduradas em árvores, monociclos e pernas-de-pau confirmavam o ecletismo da manifestação que trouxe também ao Campo Grande os solidários integrantes da Escola de Música Pracatum, Escola de Artes Circenses Picolino e Escola Criativa Olodum. Também vieram a Companhia de Dança Gicá, do Projeto Axé, as quadrilhas Forró Asa Branca, Forró do ABC e Buscapé, a dança flamenca dos grupos Alma Flamenca e Caballeros de Santiago, dentre outros.

Os dançarinos subiram ao palanque armado no Campo Grande para mostrar que estão prontos para atuar num campo em que nunca pisaram antes: o da política. Querem organizar-se para que, depois da votação do projeto de lei, pelo congresso, possam criar uma legislação adequada para a categoria. Por enquanto, as palavras de ordem e os cartazes dizem “Dança é arte”.

Desordem criativa

Amanda Almeida, 17 anos, há 12 praticante de balé clássico, jamais tinha acompanhado de perto o ijexá. Estava totalmente concentrada em aprender a movimentação junto com a colega, igualmente baiana, Verônica Gordilho, que também começou no balé quando tinha dois anos de idade. As duas estavam surpresas e contagiadas pelos passos vigorosos dos dançarinos de rua. Pareciam turistas sucumbindo ao ritmo.

Jacqueline Ferreira de Jesus, 16 anos, estudante da Pracatum e moradora do Candeal, mostrou-se comovida. “Estão lutando por uma coisa que, se morrer, vai fazer muita falta, porque... Quem vive sem dança? Quem não dança é ruim da cabeça ou doente do pé’”, resumiu ela.

A professora alemã Simone Erbech e o francês Marc Vincent tomaram chuva junto com os manifestantes, várias vezes, e não arredaram o pé da praça. Erbech disse que, na Alemanha, “dança é dança, e educação física é educação física. Eventualmente, podem trabalhar juntas, mas, legalmente, são diferentes”. Já Vincent explicou que “educação física é a ordem, e a dança é o contrário, é arte, é desordem criativa”.

Cada macaco no seu galho

Pelo Campo Grande, bailarinas seguiram os passos dos dançarinos e percussionistas dos blocos afros simpatizantes da causa, que é muito mais delas. Se a nova lei for aprovada, professoras formadas em academias ou por instituições internacionais, como o Royal Ballet, terão que se adequar às imposições do Conselho Federal de Educação Física. Esta é a questão básica que está suscitando tantos protestos.

Nem mesmo uma pesada chuva deteve as delicadas sapatilhas de pisarem forte. Rosana Abubakir, dona de uma das maiores escolas de balé clássico de Salvador e delegada do Conselho Brasileiro de Dança, na Bahia, disse, com indignação, que “se passar a ser regida pelo Conselho Federal de Educação Física, a dança vai parar”.

“Não estou querendo desmerecer ninguém, mas cada um tem seu espaço, ‘cada macaco no seu galho’. Nunca um profissional de Educação Física vai poder ensinar balé, e eu não saberia dar uma aula de aeróbica”, disse Tânia Gordilho, da Escola de Ballet do Baiano de Tênis. Ela acha que, por conta da ameaça do projeto de lei, a dança na Bahia uniu-se.

Carlinhos Moraes, da Advanced Ballet, ensina que “em todos os países do mundo, a dança define-se sem se ater a departamento técnico algum. Dança define-se como arte há séculos, tem suas características próprias e é altamente especializada. Tem profissionais dedicados ao seu estudo 24 horas por dia. Dança só pode unir-se a outras artes – à pintura, à música, ao teatro. Aí une-se mesmo”.

Carlinhos Moraes é gaúcho e ensina balé na Bahia há 31 anos. Pode falar com a autoridade de quem estudou com Nina Verchinina e de quem formou várias gerações de dançarinos. “Eu já ensinei a avó, mãe e filha” diz ele. Hoje, Carlinhos, além de ter sua escola, ensina balé aos dançarinos do BTCA e é coreógrafo da Orquestra Afro, de Emília Biancardi.

Próximos passos

A Bahia saiu na frente e disseminou a idéia de externar publicamente a apreensão em relação a aprovação do projeto de lei. Cada Estado encontrou uma forma de participar. No Rio de Janeiro, uma série de pronunciamentos reuniu centenas de profissionais da dança nas escadarias do Teatro Municipal. De lá, Dalal Ashcar, uma das grandes professoras de balé clássico no Brasil, telefonou para a professora Tânia Gordilho para saber como estava a manifestação aqui.

A mobilização no Campo Grande foi apenas uma das muitas demonstrações de insatisfação que estão sendo programadas para acontecer em todo o País. O movimento é de repúdio ao projeto de lei do deputado Pedro Pedrossian, que já estava a ponto de ser votado no Congresso Federal. Mas, diante de tamanha repercussão, uma audiência pública vai ser marcada pela Comissão de Trabalho do Congresso, para que as partes interessadas sejam ouvidas. As partes interessadas são: a que quer e a que não quer que os professores de dança passem a ter suas atividades subjugadas ao Conselho Federal de Educação Física.

A professora da Escola de Dança da Ufba Dulce Aquino, uma das articuladoras do movimento nacional, sabe que o projeto de lei tem parecer favorável na Câmara, mas que a repercussão negativa ostensiva (na mídia e nas ruas) tem dado resultado. Tanto é que suscitou a retirada do projeto de lei da pauta de votação imediata e o avanço do entendimento através de uma audiência pública para discutir o assunto.

Dulce Aquino acaba de chegar de uma reunião do Fórum de Dança (criado especialmente em decorrência do projeto de lei do deputado Pedro Pedrossian), na Universidade Anhembi-Morumbi, em São Paulo. Lá, ela ajudou a definir os nomes que integrarão a comissão de frente, a que falará defendendo o ponto de vista dos profissionais da dança, perante os deputados. São eles: Ana Botafogo, bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro; Márika Gidali, diretora do Ballet Stagium de São Paulo; Elaine D’Marcondes, professora de Cinesiologia da Universidade do Paraná; Helena Katz, jornalista e professora do curso de Pós-Graduação da PUC - Rio de Janeiro; e o da própria Dulce Aquino. Cada uma delas terá 20 minutos para falar, assim como cada um dos representantes da área de Educação Física. Da Bahia, também irá a professora de dança da Ufba Conceição Castro, que já foi membro da Comissão de Artes do Ministério de Educação e Cultura.