Notícia publicada no jornal A Tarde, em 29/04/01
Dança em campoDesordem criativa
Cada macaco no seu galho
Pelo Campo Grande, bailarinas seguiram os passos dos dançarinos e percussionistas dos
blocos afros simpatizantes da causa, que é muito mais delas. Se a nova lei for aprovada,
professoras formadas em academias ou por instituições internacionais, como o Royal
Ballet, terão que se adequar às imposições do Conselho Federal de Educação Física.
Esta é a questão básica que está suscitando tantos protestos.
Nem mesmo uma pesada chuva deteve as delicadas sapatilhas de pisarem forte. Rosana
Abubakir, dona de uma das maiores escolas de balé clássico de Salvador e delegada do
Conselho Brasileiro de Dança, na Bahia, disse, com indignação, que se passar a
ser regida pelo Conselho Federal de Educação Física, a dança vai parar.
Não estou querendo desmerecer ninguém, mas cada um tem seu espaço, cada
macaco no seu galho. Nunca um profissional de Educação Física vai poder ensinar
balé, e eu não saberia dar uma aula de aeróbica, disse Tânia Gordilho, da Escola
de Ballet do Baiano de Tênis. Ela acha que, por conta da ameaça do projeto de lei, a
dança na Bahia uniu-se.
Carlinhos Moraes, da Advanced Ballet, ensina que em todos os países do mundo, a
dança define-se sem se ater a departamento técnico algum. Dança define-se como arte há
séculos, tem suas características próprias e é altamente especializada. Tem
profissionais dedicados ao seu estudo 24 horas por dia. Dança só pode unir-se a outras
artes à pintura, à música, ao teatro. Aí une-se mesmo.
Carlinhos Moraes é gaúcho e ensina balé na Bahia há 31 anos. Pode falar com a
autoridade de quem estudou com Nina Verchinina e de quem formou várias gerações de
dançarinos. Eu já ensinei a avó, mãe e filha diz ele. Hoje, Carlinhos,
além de ter sua escola, ensina balé aos dançarinos do BTCA e é coreógrafo da
Orquestra Afro, de Emília Biancardi.
Próximos passos
A Bahia saiu na frente e disseminou a idéia de externar publicamente a apreensão em
relação a aprovação do projeto de lei. Cada Estado encontrou uma forma de participar.
No Rio de Janeiro, uma série de pronunciamentos reuniu centenas de profissionais da
dança nas escadarias do Teatro Municipal. De lá, Dalal Ashcar, uma das grandes
professoras de balé clássico no Brasil, telefonou para a professora Tânia Gordilho para
saber como estava a manifestação aqui.
A mobilização no Campo Grande foi apenas uma das muitas demonstrações de
insatisfação que estão sendo programadas para acontecer em todo o País. O movimento é
de repúdio ao projeto de lei do deputado Pedro Pedrossian, que já estava a ponto de ser
votado no Congresso Federal. Mas, diante de tamanha repercussão, uma audiência pública
vai ser marcada pela Comissão de Trabalho do Congresso, para que as partes interessadas
sejam ouvidas. As partes interessadas são: a que quer e a que não quer que os
professores de dança passem a ter suas atividades subjugadas ao Conselho Federal de
Educação Física.
A professora da Escola de Dança da Ufba Dulce Aquino, uma das articuladoras do movimento
nacional, sabe que o projeto de lei tem parecer favorável na Câmara, mas que a
repercussão negativa ostensiva (na mídia e nas ruas) tem dado resultado. Tanto é que
suscitou a retirada do projeto de lei da pauta de votação imediata e o avanço do
entendimento através de uma audiência pública para discutir o assunto.
Dulce Aquino acaba de chegar de uma reunião do Fórum de Dança (criado especialmente em
decorrência do projeto de lei do deputado Pedro Pedrossian), na Universidade
Anhembi-Morumbi, em São Paulo. Lá, ela ajudou a definir os nomes que integrarão a
comissão de frente, a que falará defendendo o ponto de vista dos profissionais da
dança, perante os deputados. São eles: Ana Botafogo, bailarina do Teatro Municipal do
Rio de Janeiro; Márika Gidali, diretora do Ballet Stagium de São Paulo; Elaine
DMarcondes, professora de Cinesiologia da Universidade do Paraná; Helena Katz,
jornalista e professora do curso de Pós-Graduação da PUC - Rio de Janeiro; e o da
própria Dulce Aquino. Cada uma delas terá 20 minutos para falar, assim como cada um dos
representantes da área de Educação Física. Da Bahia, também irá a professora de
dança da Ufba Conceição Castro, que já foi membro da Comissão de Artes do Ministério
de Educação e Cultura.