Puberdade

Maria Gabriela Bortotto, Maria Isabel de S. Souto

 

Introdução

 

A puberdade envolve diversas modificações dentro de um processo essencialmente hormônico, de maturação e crescimento. É dividida em duas fases: a pubescência, que é marcada por mudanças físicas como a explosão do crescimento físico, transformações da estrutura e proporção corporal, e características sexuais primárias e secundárias; já a puberdade propriamente dita compreende o clímax das mudanças corporais iniciadas no período anterior, ou seja, o aparecimento da menarca na menina, e a produção e ejaculação de espermatozóides no menino.

A adolescência é um processo psicológico, social e de maturação, iniciado pela puberdade, e que envolve a conquista da maturidade social. Esta fase também pode ser dividida em três outras etapas: adolescência inicial, que coincide com as mudanças do processo puberal (11 aos 15 anos); adolescência mediana ( 15 a 17 anos) e adolescência terminal ( 17 a 24 anos). Desta forma, pode-se entender que o período da adolescência envolve transformações biopsicossociais, dentre as quais se encontram as do processo puberal. (Enderle, 1988).

Não há um consenso com relação aos limites cronológicos da puberdade, mas em geral admite-se que a puberdade feminina tem início entre os 10 ou 11 anos de idade, com surgimento dos brotos mamários e aparecimentos dos pêlos pubianos, sendo que a fase do estirão ocorre aos 12 anos, na maior parte das vezes antecedendo a menarca (o crescimento é de 8 a 9 cm/ano). Ao final do estirão, na fase de desaceleração do crescimento, que ocorre entre os 12 e 13 anos ( mais perto do fim da puberdade), ocorre a menarca.Já a puberdade masculina tem início entre os 11 ou 12 anos, com aparecimento dos pêlos pubianos e aumento do volume dos testículos.O desenvolvimento do pênis e da ejaculação costuma ocorrer dos 13 aos 17 anos. O estirão ocorre por volta dos 14 anos, mais próximo do fim da puberdade ( cerca de 10 cm/ano). ( Ferriani; Santos, 2001 ).

 

As complexas mudanças da puberdade

Alterações fisiológicas

A criança perde o modo infantil e sente as primeiras modificações corporais, que são decorrentes de um aumento da atividade hormonal, especialmente dos hormônios sexuais.Ocorre desenvolvimento dos caracteres sexuais primários e secundários; modificações do tamanho, peso, proporções do corpo e desenvolvimento muscular; alterações associadas da força, coordenação e habilidade; aumento do apetite, para suprir as necessidades do organismo em crescimento.

Em ambos os sexos, o crescimento é centralizado nas extremidades e ocorre em assincronia, ou seja, há uma tendência de diferentes partes do corpo se desenvolverem em ritmos separados. É isso que confere o aspecto desajeitado característico dos indivíduos nessa fase.

Os hormônios sexuais diferentes produzem crescimento diferenciado entre meninos e meninas. A menina tende a acumular gordura, o que arredonda os contornos do corpo alargando os quadris. Já nos meninos, tende a ocorrer desenvolvimento da massa muscular com alargamento dos ombros.(Stone; Church, 1979)

É comum uma variabilidade individual dos fenômenos pubertários, tanto em relação ao seu momento inicial quanto ao ritmo de sua progressão, variando de acordo com determinantes genéticos, culturais e sócio-econômicos.

 

Aspectos psicológicos e sociais

"O crescimento intenso em altura, peso e musculatura, e o desenvolvimento de características sexuais primárias e secundárias podem ser acompanhados de estados emocionais relevantes, dando ao crescimento físico significados altamente pessoais." (Blos, 1985, p.11 )

Seguindo-se a um longo período de crescimento relativamente lento, a puberdade produz alterações acentuadas em todo o corpo, porém em especial nos órgãos ligados à reprodução.O jovem encontra dificuldades para arcar com tantas mudanças em tão breve período de tempo, por isso, mesmo sem sair dos limites normais, um rápido surto de crescimento é capaz de provocar aflitivas reações psicológicas.

Para os meninos, as modificações relacionadas aos órgãos reprodutivos têm particular importância , pois os mesmos são externos e facilmente visíveis.Em geral eles acreditam que quanto maiores tiverem o pênis e os testículos, maiores serão sua virilidade e potência.

Já as meninas demonstram menor preocupação com os caracteres sexuais primários, visto que seus órgãos sexuais se encontram, quase todos, dentro do corpo e não são vistos com facilidade. Portanto, desenvolvem preocupações profundas a respeito da menstruação e do tamanho do seios.O início da menstruação significa para a menina que ela se tornou sexualmente madura.

Em ambos os sexos, encontra-se a preocupação com relação aos caracteres sexuais secundários, que são tidos como traços físicos distintivos de masculinidade e feminilidade.São mais importantes para os adolescentes do que os caracteres sexuais primários, pois significa o principal foco de atração entre o homem e a mulher.O menino preocupa-se com a altura, tamanho dos músculos, largura dos ombros e estreiteza dos quadris, enquanto a menina se preocupa com o desenvolvimento dos seios e o alargamento dos quadris, e tem medo de ficar muito alta.

O aumento da preocupação com o próprio corpo é evidente, por isso problemas como obesidade e acne são motivos de dificuldades emocionais. A ansiedade costuma ser intensa e muitas vezes manifestada através de sudorese, taquicardia e tensão muscular.

A masturbação é uma atividade característica da fase, sendo que ocorre de diferentes maneiras entre os sexos.Os meninos costumam se masturbar com regularidade, já as meninas utilizam-se de outros métodos, como a estimulação do clitóris com o travesseiro entre as pernas ao dormir.

O aumento da energia física é manifestado através das ações, sendo por isso que os adolescentes tendem a agir impulsivamente de inúmeras maneiras, o que pode causar comportamentos socialmente condenáveis, como promiscuidade e roubo.

No momento em que os adolescentes se vêem diante do fato de que o seu desenvolvimento biológico chegou ao fim, eles enfrentam a realidade de que seu corpo será daquele jeito, que poderá causar decepções e traumas psicológicos. ( Settlage,1989)

 

Comportamentos de resposta à puberdade:

Segundo Mucchielli (1962), existe uma fase de intensa revolta na pubescência, que é chamado de surto de independência, onde o adolescente apresenta comportamentos agressivos, de irritabilidade e mau humor. Passada essa fase, na puberdade, as reações psicológicas mais notórias são:

-Passividade passageira:

Quando surgem os sinais exteriores de maturidade sexual, ocorre um período de tranqüilidade que pode durar de alguns meses a um ano no máximo.

-Narcisismo:

É a negação, até certo ponto da relação com os outros e com a realidade.O adolescente adquire aspecto "desligado". Este período é importante para que o jovem reencontre sua consciência e identidade próprias.

-Caprichos:

Neste período os caprichos assumem forma de súbitas alterações de conduta rebelde, como resíduo da pubescência.

-Preocupações pessoais:

Podem ter como objeto a escola, as notas, as amizades ou outros fatores. Essas preocupações geralmente são guardadas em segredo e só aparecerão em momentos de explosão.

-Sexualidade:

Progride para o interesse heterossexual, ou seja, aparece o interesse positivo pelo sexo oposto, o que não quer dizer que o jovem esteja pronto para experiências sexuais propriamente ditas.A masturbação é a forma mais freqüente de expressão da sexualidade, sendo que na maioria das vezes ela é realizada escondido pois o auto erotismo costuma ser condenado.

 

A puberdade na visão psicanalítica

 

Anna Freud (1952), foi a primeira autora a realizar investigações sobre a puberdade, servindo de ponto de partida para as pesquisas atuais.Para ela , ao período da latência, que é caracterizado pelo abrandamento dos instintos sexuais, segue-se a fase puberal, marcada pelo reaparecimento dos impulsos sexuais e aumento da libido.Na latência, vários mecanismos defensivos protegiam a criança das manifestações agressivas, como voracidade, brutalidade e delinqüência que ocorrem na puberdade, que é quando esses mecanismos não estão mais a disposição.Anna Freud considerava apenas o determinismo biológico, desprezando quase por completo as relações do jovem com o meio.

Segundo Erikson (1975), a puberdade é um período sensível, pois nela o ego está em foco, sendo a última chance que este tem para se reajustar.

 

Considerações finais

 

Aos educadores interessa o estudo aprofundado da fase puberal e, posteriormente, da fase adolescente, visando-se efetuar uma intervenção pedagógica terapêutica de bom prognóstico, favorecendo desenvolvimento de um indivíduo verdadeiramente participativo, consciente e critico. ( Enderle, 1988).

 

Referências Bibliográficas

BLOS, P. Adolescência, uma interpretação psicanalítica. São Paulo: Martins, Fontes, 1985.

ENDERLE, C. Considerações gerais sobre a fase. In: Psicologia da adolescência: uma abordagem pluridimensional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988, p. 13-21.

ERIKSON, E. Infância e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

FERRIANI, M.G.C.; SANTOS, G.V.B. Adolescência, puberdade e nutrição. In: ABEN. Adolescer: compreender, atuar, acolher. Brasília: ABEn, 2001.

SETTLAGE, C.F.(org.) A biologia da adolescência. In: Dinâmica da adolescência: aspectos biológicos, culturais e psicológicos. São Paulo: Cultrix, 1989, 6a ed., p.23-30

STONE, L.J.; CHURCH, J. Pubescência, puberdade e desenvolvimento físico. In: Infância e adolescência. Belo Horizonte: Interlivros, 1979, 3a ed., p. 329-334.